Durante anos, a família Bolsonaro construiu uma relação privilegiada com parcelas importantes do eleitorado evangélico brasileiro. A identificação narrativa com pautas conservadoras, a defesa pública de símbolos religiosos e a aproximação com lideranças influentes fizeram do segmento um dos pilares mais sólidos do bolsonarismo. Por isso mesmo, a recente queda de Flávio Bolsonaro entre os evangélicos chama tanta atenção.
Segundo os dados da pesquisa Genial/Quaest divulgados em junho, o senador perdeu oito pontos percentuais entre os eleitores evangélicos em um cenário de primeiro turno. Enquanto entre os católicos seu desempenho permaneceu praticamente estável, foi justamente na base religiosa considerada mais fiel ao bolsonarismo que ocorreu a principal erosão de apoio. Flávio caiu de 49% para 41% entre os evangélicos, enquanto Lula avançou, na margem de erro, de 25% para 26%.
A pergunta inevitável é: por quê?
A explicação provavelmente não está em divergências teológicas nem em mudanças repentinas de posicionamento ideológico. O que parece estar em jogo é algo ainda mais fundamental para o universo evangélico: a confiança.
Boa parte da identidade pública construída pelo bolsonarismo junto aos evangélicos esteve baseada em valores (que na verdade nunca existiram) como honestidade, integridade moral, compromisso com a verdade e combate à corrupção. Quando surgem notícias que colocam em dúvida justamente esses elementos, o impacto tende a ser maior nesse público do que em outros segmentos do eleitorado.
Nas últimas semanas, reportagens e revelações envolvendo o senador Flávio Bolsonaro ao empresário Daniel Vorcaro e pessoas ligadas à produção do filme “Dark Horse” produziram desgaste político considerável. Além das investigações relacionadas a contratos públicos e suspeitas de irregularidades, repercutiu negativamente a divulgação de informações que levantaram questionamentos sobre declarações anteriores do senador. Parte da cobertura jornalística passou a destacar uma percepção de contradição entre versões apresentadas anteriormente e fatos posteriormente revelados.
Em política, muitas vezes não é apenas o fato em si que produz consequências, mas a sensação que ele gera. E o sentimento que parece emergir em parte do eleitorado evangélico é o de desconforto diante de sucessivos episódios que remetem a suspeitas de favorecimento, proximidade com esquemas pouco transparentes ou versões contraditórias dos acontecimentos.
É importante lembrar que o eleitor evangélico não é um bloco homogêneo. Trata-se de um segmento diverso, com diferenças regionais, sociais e denominacionais. Mas há um ponto comum que costuma atravessar esse universo: a valorização da coerência entre discurso e prática.
Quando um líder político se apresenta como defensor da verdade, qualquer acusação relacionada à mentira produz um dano político maior. Quando alguém constrói sua imagem em torno do combate à corrupção, qualquer suspeita de irregularidade ganha peso redobrado. Quando a principal moeda política é a confiança, a simples existência de dúvidas já se torna um problema. Talvez seja justamente isso que os números da Quaest estejam captando.
Outro aspecto relevante é que a queda de Flávio Bolsonaro não se converteu automaticamente em crescimento equivalente para Lula entre evangélicos. Este dado merece atenção especial.
Embora a aprovação do governo Lula tenha apresentado melhora entre evangélicos, o avanço eleitoral do presidente nesse segmento foi muito menor do que a perda registrada pelo senador do PL. Isso sugere que uma parcela significativa desses eleitores não está migrando diretamente para o campo petista. Em vez disso, parece estar entrando em uma zona de indecisão, afastamento ou reavaliação política.
Em outras palavras: há um enfraquecimento relativo da candidatura bolsonarista, mas ainda não existe uma transferência automática desse capital político para seus adversários. Esse talvez seja o principal ensinamento dos dados e onde a esquerda deve trabalhar mais: fazer com que o desencanto em Flávio Bolsonaro se transforme em votos para Lula.
A pesquisa sugere um eleitorado menos disposto a conceder confiança irrestrita a lideranças que durante anos desfrutaram de enorme crédito político e moral. Trata-se de uma mudança importante.
Durante muito tempo, a disputa política brasileira foi interpretada como uma simples guerra de identidades: quem era bolsonarista continuaria bolsonarista; quem era lulista permaneceria lulista. Os números atuais indicam que existe um espaço intermediário/flutuante/volátil crescendo entre esses polos. Nesse ambiente, a variável decisiva deixa de ser apenas ideologia e passa a ser credibilidade.
Porque, para muitos eleitores evangélicos, a questão central não parece mais ser apenas quem defende determinados valores. A pergunta passa a ser outra: quem inspira confiança para representá-los?
E quando essa confiança começa a se romper, os efeitos eleitorais costumam ser profundos e duradouros.
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Zé Barbosa Jr é teólogo, pastor, licenciado em história e pós-graduado em Ciências Políticas
*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum