Deolane Bezerra é presa suspeita de esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC
Operação Vérnix, do MP-SP e da Polícia Civil também mira integrantes da cúpula da facção criminosa, incluindo o Marcola, que já está preso em penitenciária federal
- Deolane Bezerra/Foto: Reprodução Redes Sociais
A influenciadora digital e advogada Deolane Bezerra foi presa novamente na manhã desta quinta-feira (21) durante uma operação do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e da Polícia Civil que investiga um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A ação, batizada de Operação Vérnix, também mira integrantes da cúpula da facção criminosa, incluindo Marco Herbas Camacho, conhecido como Marcola, que já está preso em penitenciária federal.
Deolane já havia sido presa no Recife, em setembro de 2024, em uma operação da Polícia Civil de Pernambuco (Operação Integration) que investigava uma organização suspeita de lavagem de dinheiro e apostas ilegais. Após 15 dias presa, ela conseguiu um habeas corpus para prisão domiciliar.
Além de Marcola, a Justiça expediu mandados de prisão preventiva contra parentes do líder da facção e operadores financeiros apontados pela investigação. Entre os presos está Everton de Souza, conhecido como “Player”, identificado como responsável pela movimentação financeira do grupo criminoso. A defesa dos investigados não se manifestou até o momento.
Também são alvos da operação o irmão de Marcola, Alejandro Camacho, e os sobrinhos Paloma Sanches Herbas Camacho e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho. Segundo a polícia, Paloma estaria na Espanha e Leonardo na Bolívia. Ao todo, foram expedidos seis mandados de prisão preventiva, além de ordens de busca e apreensão.
O esquema de lavagem de dinheiro
De acordo com as investigações, o esquema de lavagem de dinheiro utilizava uma transportadora de cargas sediada em Presidente Venceslau, no interior paulista, apontada como empresa de fachada controlada pela cúpula do PCC. A organização teria movimentado milhões de reais por meio da companhia para ocultar recursos do crime organizado.
Deolane havia passado as últimas semanas em Roma, na Itália, e chegou a ter o nome incluído na Difusão Vermelha da Interpol. Ela retornou ao Brasil na quarta-feira (20), um dia antes da operação. Agentes cumpriram mandados de busca e apreensão em imóveis ligados à influenciadora em Barueri e em outros endereços associados a ela.
O influenciador digital Giliard Vidal dos Santos, considerado filho de criação de Deolane, além de um contador ligado ao grupo, também foram alvos de buscas. Segundo a investigação, Everton de Souza aparecia em mensagens interceptadas orientando a distribuição de dinheiro oriundo da transportadora e indicando contas de destino dos valores.
As investigações
As investigações tiveram início em 2019, após a apreensão de bilhetes e manuscritos com presos na Penitenciária II de Presidente Venceslau. O material revelou referências a ordens internas do PCC, contatos com integrantes da alta hierarquia da facção e menções a ataques planejados contra agentes públicos.
Um dos trechos chamou a atenção dos investigadores ao mencionar uma “mulher da transportadora”, que teria auxiliado na obtenção de endereços de servidores públicos. A partir daí, a Polícia Civil e o MP passaram a investigar a empresa de cargas, identificada posteriormente como peça-chave de um esquema de lavagem de dinheiro.
Operação Lado a Lado
As apurações evoluíram para a Operação Lado a Lado, deflagrada em 2021, que apontou movimentações financeiras incompatíveis com a renda declarada dos investigados e indicou a utilização da transportadora como braço financeiro do PCC. A apreensão do celular de Ciro Cesar Lemos, apontado como operador central do esquema, abriu uma nova frente de investigação envolvendo conexões financeiras com Deolane Bezerra.
Segundo o inquérito, Ciro Cesar Lemos atuava na compra de caminhões, realização de pagamentos e movimentação de recursos da cúpula da facção, além de administrar patrimônio em nome de Marcola e Alejandro Camacho. Imagens de depósitos destinados às contas de Deolane e Everton de Souza foram encontradas no aparelho apreendido. Ciro está foragido, assim como a esposa.
A investigação aponta que valores provenientes da empresa Lopes Lemos Transportes eram destinados a Marcola, Alejandro Camacho e familiares, utilizando contas bancárias de Everton de Souza e Deolane Bezerra para as transações financeiras.
Vínculos pessoais e comerciais
Os investigadores afirmam ainda que Deolane mantinha vínculos pessoais e comerciais com um dos gestores da transportadora. A partir dessa conexão, nasceu a Operação Vérnix, voltada a aprofundar suspeitas de lavagem de dinheiro com ramificações empresariais, patrimoniais e financeiras.
De acordo com a polícia, foram identificadas movimentações milionárias, utilização de empresas, recebimentos sem origem comprovada e aquisição de bens de alto padrão em nome da influenciadora. Para os investigadores, a exposição pública, as atividades empresariais formais e o patrimônio ostentado eram utilizados como mecanismo para dar aparência de legalidade aos recursos ilícitos.
Risco de destruição de provas
Ao decretar as prisões, a Justiça de São Paulo apontou a existência de provas do crime e fortes indícios de autoria contra os investigados, destacando movimentações financeiras suspeitas e ligações diretas com o PCC. A decisão também citou risco de destruição de provas, continuidade das atividades criminosas e possibilidade de fuga de investigados que estão fora do país.
A investigação afirma que Deolane recebeu dinheiro proveniente do PCC por meio de depósitos fracionados, prática conhecida como “smurfing”, utilizada para dificultar o rastreamento das transações. Entre 2018 e 2021, a influenciadora teria recebido mais de R$ 1 milhão em depósitos abaixo de R$ 10 mil em sua conta pessoal.
Além disso, quase 50 depósitos, somando R$ 716 mil, foram feitos em empresas ligadas a Deolane por uma companhia que se apresentava como banco de crédito e cujo responsável, segundo a investigação, seria um homem da Bahia com renda compatível a um salário mínimo.
Os investigadores afirmam não ter encontrado pagamentos ou prestações de serviço que justificassem os valores recebidos por Deolane e suas empresas. A Justiça determinou o bloqueio de R$ 27 milhões em bens e valores atribuídos à influenciadora, quantia considerada sem origem comprovada e com indícios de lavagem de dinheiro.
A operação também resultou no bloqueio de 39 veículos avaliados em mais de R$ 8 milhões e no congelamento de R$ 357,5 milhões em ativos financeiros dos investigados.