Embora nunca tenha atuado na NBA, foi uma atuação histórica de Oscar Schmidt que ajudou a mudar as regras do basquete mundial. Na época em que foi “draftado” (selecionado) pelo New Jersey Nets, jogadores profissionais da liga americana eram proibidos de atuar por suas seleções, motivo pelo qual o brasileiro recusou o convite.
Na final do basquete dos Jogos Pan-Americanos de 1987, realizados em Indianápolis, Indiana, Oscar ajudou a derrotar um gigante da modalidade. A Market Square Arena estava lotada, com 16.408 espectadores, e os EUA viraram o primeiro tempo vencendo por 14 pontos de vantagem e chegaram a liderar por 20 pontos.
Mas a segunda etapa foi diferente, inclusive para a lenda brasileira. Ele havia marcado 11 pontos no primeiro tempo, mas fez 35 no tempo final. Foi o cestinha da partida com 46 pontos e seis cestas de três, levando a equipe brasileira à vitória por 120 a 115.
A equipe dos EUA nos Jogos Pan-Americanos contava com os futuros jogadores da NBA David Robinson, Willie Anderson, Pooh Richardson, Ricky Berry, Danny Manning, Pervis Ellison e Fennis Dembo. Mas não foi páreo para Oscar e outro ala, Marcel, que fez 31 pontos.
Para se ter uma dimensão do que significou aquela derrota, foi apenas a terceira na história dos Jogos Pan-Americanos da equipe masculina dos EUA e a segunda vez desde 1951 que os Estados Unidos não chegaram ao topo do pódio. Mais que isso: o revés em Indianápolis foi o primeiro de uma seleção dos EUA em casa e a primeira vez que sofreu mais de 100 pontos em um jogo no país.
O “trauma” provocado por Oscar Schmidt
O The New York Times registrava assim a derrota estadunidense: “Durante uma coletiva de imprensa no sábado, Denny Crum, técnico da seleção masculina de basquete dos Estados Unidos, comentava sobre a equipe brasileira quando percebeu que havia esquecido o nome do melhor jogador do Brasil. Finalmente, um de seus jogadores folheou a lista de jogadores e disse o nome em voz alta”.
“Após o jogo de hoje, o nome Oscar Schmidt estará na mente de Crum e nas memórias dos 16.408 torcedores presentes na Market Square Arena, que viram o Brasil protagonizar a maior zebra dos X Jogos Pan-Americanos, ao derrotar os Estados Unidos por 120 a 115 e conquistar a medalha de ouro”, seguia a matéria.
A vitória brasileira foi traumática para os Estados Unidos. A USA Basketball e a NCAA entenderam que precisavam enviar seus melhores jogadores, os profissionais e não os universitários, para se manterem competitivos em alto nível.
Este choque de 1987 foi seguido por um novo fracasso estadunidense no ano seguinte, quando o time perdeu na semifinal das Olimpíadas de Seul, na Coreia do Sul, para a extinta União Soviética e ficou com a medalha de bronze, sofrendo sua segunda derrota na história das competições olímpicas.
“Embora seu histórico olímpico fosse impecável, com 79 vitórias e apenas uma derrota, os Estados Unidos haviam sofrido uma série de reveses em alguns dos torneios internacionais menos prestigiosos. Só em 1987, perderam o Campeonato Mundial Júnior para a Iugoslávia e Toni Kukoc. A derrota veio novamente para a Iugoslávia nos Jogos Mundiais Universitários”, diz nesta postagem o colunista esportivo do USA Today, Craig Meyer. “Naquela que foi geralmente considerada a derrota mais alarmante, os Estados Unidos perderam para o Brasil nos Jogos Pan-Americanos de 1987, após sofrerem 46 pontos do lendário jogador de basquete Oscar Schmidt.”
A regra muda e vem o Dream Team
Após essas derrotas e com as demandas das entidades dos EUA, a FIBA votou por 56 a 13, em abril de 1989, a favor da participação de jogadores da NBA em torneios internacionais, incluindo as Olimpíadas.
Nos Jogos Olímpicos seguintes, disputados em Barcelona, em 1992, veio o que seria a formação original do “Dream Team” dos Estados Unidos, reunindo lendas da modalidade lembradas até hoje, como Michael Jordan, Larry Bird, Scott Pippen e Magic Johnson.
Dos doze jogadores daquele time, dez foram escolhidos em 1996 entre os 50 maiores jogadores da história da NBA. O treinador Chuck Daly, naquelas Olimpíadas, não pediu um único intervalo durante o evento.
Quis o destino que Oscar Schmidt enfrentasse aquele Dream Team. Desta vez, o Brasil acabou perdendo de 127 a 83, com o brasileiro anotando 24 pontos nos 30 minutos em que esteve em quadra. Em entrevista, Oscar comentou como foi aquela partida.
“Lembro com enorme satisfação que, mesmo perdendo, eu tive a honra de jogar contra o melhor time da história do basquete. Só faltaria Kobe Bryant, Shaquille O’Neal e LeBron James naquele timaço. Olhando pra trás, dá uma sensação enorme de felicidade de poder estar ali, em um momento histórico do basquete, mas não só isso. Deu orgulho saber que a nossa seleção mudou os rumos do basquete mundial em 1987 quando vencemos o Pan-Americano na casa deles”, disse o maior jogador de basquete da história do Brasil.