(MANIPULAÇÃO?) - Vídeo: pastora convoca fiéis a "guerra santa" por teocracia no Brasil

O meu povo perece porque lhe falta o conhecimento

Por História de Zé Barbosa Junior
5 Min
(MANIPULAÇÃO?) - Vídeo: pastora convoca fiéis a "guerra santa" por teocracia no Brasil
VÍDEO: Pastora convoca fiéis a “guerra santa” por teocracia no Brasil

O Brasil vive um momento delicado na interseção entre fé e política. Declarações recentes da pastora Valnice Milhomens, fundadora da INSEJEC (Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo), reacendem um debate que nunca deixou de existir, mas que agora ganha contornos mais explícitos: o risco de uma teocracia ou ao menos de um projeto político que busca se legitimar por meio da religião.

Em suas falas, Valnice não apenas defende a presença de cristãos na política, algo legítimo em qualquer democracia, mas vai além. Ela constrói uma narrativa em que o destino da nação está diretamente condicionado à submissão dos governantes a Deus — ou, em contraponto, à suposta influência demoníaca sobre aqueles que não compartilham de sua visão religiosa. A lógica é simples, mas poderosa: governos alinhados à sua fé geram bênção; governos divergentes trazem maldição.

Esse tipo de discurso não é novo. Ele remonta a uma leitura específica de textos bíblicos, especialmente do Antigo Testamento, como a história dos reis de Israel, usada como modelo político contemporâneo. O problema surge quando essa interpretação é transportada de forma literal para um Estado moderno, plural e constitucionalmente laico.

Mais do que uma opinião religiosa, o que se observa é a construção de uma cosmovisão política. A chamada “teoria dos sete montes”, mencionada por Valnice, propõe que cristãos ocupem posições estratégicas em áreas como governo, educação, mídia e cultura. À primeira vista, trata-se de influência — algo comum a qualquer grupo social organizado. No entanto, o discurso frequentemente ultrapassa esse limite e adentra o território do controle. É a tal “teologia do domínio” em sua plenitude.

A linguagem utilizada reforça essa percepção. Termos como “guerra”, “conquista”, “domínio” e “recuo” revelam uma espiritualidade militarizada, em que a política deixa de ser espaço de diálogo e passa a ser campo de batalha. Nesse cenário, adversários políticos não são apenas oponentes ideológicos, mas inimigos espirituais.

Essa visão cria um ambiente propício à deslegitimação da democracia. Quando se acredita que determinado grupo político é instrumento direto de Deus, qualquer oposição pode ser vista como resistência ao próprio divino. O debate público perde espaço para a certeza absoluta — e perigosa — de que há um lado “ungido” e outro “amaldiçoado”.

O contraponto a essa narrativa vem de dentro do próprio campo evangélico. O pastor Hermes Fernandes, em resposta às falas de Valnice, alerta para o risco de transformar o Evangelho em ferramenta de poder. Para ele, há uma distorção central: a substituição da mensagem de serviço, humildade e entrega — simbolizada pela cruz — por uma lógica de domínio e imposição.

Hermes chama atenção para o uso estratégico da linguagem religiosa para legitimar projetos políticos. Quando decisões institucionais, como nomeações ou mudanças no Judiciário, são interpretadas como “movimentos de Deus”, cria-se um ambiente onde questionar tais decisões passa a ser visto como ato de irreverência espiritual.

Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, movimentos semelhantes ganharam força ao longo das últimas décadas, especialmente entre setores do evangelicalismo que passaram a ver a política como extensão direta de sua missão religiosa. O resultado tem sido uma crescente polarização, onde fé e ideologia se confundem de maneira quase indissociável.

No Brasil, esse processo ainda está em curso — mas sinais de alerta já são visíveis.

Nos últimos anos, vozes evangélicas têm se levantado justamente para defender esse princípio. O Movimento Evangélico Progressista (MEP) é um exemplo dessa articulação. Formado por cristãos que reconhecem a importância da fé, mas rejeitam sua instrumentalização política, o grupo busca resgatar uma compreensão do Evangelho centrada na justiça social, no cuidado com o próximo e no respeito à democracia.

Pastores e lideranças como Henrique Vieira, Aava Santiago, Hermes Fernandes, Fillipe Gibran, Zé Barbosa Jr., Tiago Santos, entre outros e outras têm desempenhado papel importante nesse debate. A partir de suas experiências de fé, eles argumentam que a defesa de um Estado laico não enfraquece o cristianismo — ao contrário, o protege.

Para esses líderes, a mistura entre religião e poder estatal tende a corromper ambos. A política passa a ser usada como ferramenta de imposição moral, enquanto a fé se torna refém de interesses e disputas de poder. O resultado é uma espiritualidade esvaziada de sua essência e uma democracia fragilizada.

A história mostra que projetos teocráticos raramente começam com imposições explícitas. Eles se constroem gradualmente, a partir da naturalização de discursos que colocam uma crença acima das demais e que confundem autoridade divina com poder político.

Eis o perigo.

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FONTE: https://www.msn.com/
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