Era uma vez os evangélicos – por pastor Zé Barbosa Jr
Era uma vez os evangélicos – por pastor Zé Barbosa Jr
Houve um tempo em que falar dos evangélicos no Brasil era falar de gente simples. Gente de Bíblia gasta, de culto em salão improvisado, de banco de madeira e ventilador barulhento no teto. Eram comunidades que nasciam nas periferias, nos interiores esquecidos, nos becos onde o Estado nunca chegava. Ali, a fé era refúgio e também esperança. A igreja era, muitas vezes, o único lugar onde o pobre podia falar, cantar, chorar e ser ouvido.
Era uma fé marcada pela solidariedade cotidiana. A irmã que levava sopa para quem estava doente, o irmão que ajudava a consertar o telhado do vizinho, a oferta recolhida para socorrer alguém desempregado. O evangelho, para essa gente, não era um projeto de poder. Era um jeito de sobreviver com dignidade em meio à dureza da vida.
Mas algo se perdeu pelo caminho.
Nas últimas décadas, parte significativa do movimento evangélico brasileiro passou por uma transformação profunda. Aquilo que antes era uma força comunitária, frequentemente crítica das injustiças, começou a se aproximar perigosamente dos centros de poder político e econômico. O púlpito, em muitos lugares, deixou de ser apenas espaço de consolo e reflexão espiritual para se tornar também palanque.
Hoje, não é raro ver líderes religiosos envolvidos até o pescoço em escândalos, negociatas e alianças pouco republicanas. Igrejas transformadas em máquinas de arrecadação. Pastores convertidos em empresários da fé. Parlamentares que dizem representar o evangelho enquanto participam de conchavos que pouco têm a ver com o espírito das bem-aventuranças.
Vorcaros, Nikolas, Guilhermes, Zetteis e Malafaias despontam todos os dias, com outros nomes, mas as mesmas atribuições: evangélicos envolvidos nos piores esquemas que conhecemos. Uma verdadeira máfia eclesiástica. A chamada bancada evangélica, que em tese deveria defender valores éticos elevados, tornou-se, em muitos casos, o grupo mais abjeto e promíscuo do jogo político brasileiro. Um jogo marcado por interesses, trocas de favores e alianças com setores que historicamente pouco se preocuparam com a vida dos mais pobres.
O paradoxo é evidente.
O evangelho nasceu entre os marginalizados. A mensagem de Jesus foi dirigida aos pobres, aos doentes, aos que estavam à margem das estruturas de poder. O carpinteiro de Nazaré criticou duramente as elites religiosas e políticas de seu tempo, denunciando sua hipocrisia e seu apego aos privilégios.
Hoje, porém, não são poucos os que usam seu nome para justificar projetos políticos autoritários, discursos de ódio e políticas que aprofundam desigualdades sociais. Há algo profundamente contraditório nisso.
Grande parte da base evangélica continua sendo formada justamente por aqueles que mais sofrem com a precariedade da vida brasileira: trabalhadores informais, moradores de periferias, mulheres negras chefes de família, jovens sem acesso pleno a oportunidades. São pessoas que encontram na fé um espaço legítimo de acolhimento e sentido.
Ainda assim, curiosamente, muitos desses fiéis acabam sendo mobilizados politicamente em favor de projetos que pouco ou nada fazem para melhorar suas condições de vida — e que, em alguns casos, flertam abertamente com ideias autoritárias e excludentes.
Trata-se de um fenômeno complexo, que envolve fatores culturais, sociais e políticos. A fé oferece pertencimento, identidade e segurança moral em um mundo cada vez mais instável. Mas também pode ser instrumentalizada por lideranças que transformam crença em capital político. Quando isso acontece, o evangelho deixa de ser boa notícia para se tornar ferramenta de poder.
E talvez seja justamente isso que cause maior tristeza em quem ainda acredita no potencial transformador da fé cristã. Porque o problema não está na religiosidade popular, nem na espiritualidade sincera de milhões de brasileiros. O problema está na captura dessa fé por projetos de poder que pouco têm a ver com o espírito do evangelho.
Quando pastores defendem privilégios enquanto seus fiéis enfrentam desemprego e insegurança alimentar, algo está profundamente errado. Quando líderes religiosos se calam diante da violência, da injustiça e da desigualdade — ou pior, quando as justificam — o escândalo não é apenas político. É também moral e espiritual. E o preço disso é alto.
A imagem pública dos evangélicos, que já foi associada à solidariedade e à vida comunitária, hoje muitas vezes aparece vinculada, e infelizmente com razão, a intolerância, escândalos financeiros e disputas de poder. Isso não representa a totalidade do movimento, mas é a face que se tornou mais visível.
Ainda existem comunidades que vivem o evangelho de forma simples e generosa. Pastores e pastoras comprometidos com justiça social. Igrejas que acolhem, alimentam, educam e defendem a dignidade humana. Eles existem — e são muitos. Mas suas vozes têm sido frequentemente abafadas pelo barulho das estruturas religiosas mais poderosas e midiáticas.
Talvez seja por isso que, ao olhar para o cenário atual, surja um sentimento estranho de nostalgia. Como se estivéssemos contando uma história que começa com uma frase melancólica:
Era uma vez os evangélicos.
Não como um epitáfio definitivo, mas como um lembrete. Um lembrete de que a fé que nasce entre os pobres e anuncia libertação não deveria terminar a serviço dos poderosos. Se há esperança, ela talvez esteja justamente na base — nas mesmas periferias onde esse movimento cresceu. Ali ainda vivem milhões de pessoas cuja fé não cabe em gabinetes nem em acordos políticos.
Talvez o futuro do evangelho no Brasil dependa de quando — e se — essas vozes voltarão a ser ouvidas.
*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum