Por mais um ano, a Prefeitura de Maceió demonstra pouco apreço pela essência do São João nordestino. A recente divulgação da programação do São João Massayó 2025 reforça uma tendência lamentável: a substituição da cultura regional por atrações comerciais de apelo nacional, muitas vezes completamente alheias à tradição junina.
O cancelamento do show da dupla sertaneja Zé Neto e Cristiano e a alteração nas datas das apresentações de Simone Mendes e Leonardo foram tratadas como simples mudanças na agenda. No entanto, o problema vai muito além disso. Como bem diz o ditado popular, trata-se do clássico “irrelevante por irrelevante”. Os artistas permanecem os mesmos em essência: grandes nomes do cenário pop-sertanejo, mas completamente distantes da alma do São João tradicional.
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Enquanto isso, os legítimos trios de forró alagoanos, que mantêm viva a tradição do xote, do baião e do arrasta-pé, seguem sendo negligenciados. Com cachês significativamente mais modestos, esses grupos poderiam não apenas compor uma programação autêntica, mas também movimentar a economia cultural local, dando visibilidade a quem carrega nas costas o peso de manter vivas as raízes nordestinas.
Enquanto isso, as críticas que ecoam nas redes sociais ganham ainda mais força diante de informações como o suposto cachê de quase R$ 600 mil pago à artista Pabllo Vittar — cuja música, embora respeitável em seu nicho, está completamente desvinculada da estética, sonoridade e espírito do São João. Esse valor seria suficiente para contratar dezenas de trios de forró locais, promovendo não apenas entretenimento, mas pertencimento cultural.
Claro que é possível — e até desejável — promover diversidade e pluralidade nas festas públicas. No entanto, quando o regional se torna exceção em uma festa que nasceu da cultura popular nordestina, há algo profundamente errado. A presença pontual de nomes ligados à música nordestina soa mais como um verniz do que como valorização real.
Em vez de uma celebração da cultura local, o São João de Maceió caminha para se tornar mais um festival genérico, moldado por interesses midiáticos e por uma lógica de mercado que pouco considera a identidade do povo alagoano.
É preciso retomar a zabumba, a sanfona e o triângulo. É preciso, sobretudo, reconhecer que o São João não é apenas uma festa — é um patrimônio imaterial que carrega história, resistência e pertencimento. E isso não pode ser trocado por likes, cifras ou contratos milionários.
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Por: Jornalista Jerlane Calheiros